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IA para escrever conteúdo médico: limites e cuidados antes de publicar


Rodrigo SouzaDiagnóstico e copy
Você pode usar ferramentas de IA para rascunhar textos do site e do blog, e as resoluções do CFM que tratam do assunto não proíbem isso. O que elas deixam claro é quem responde pelo resultado: o médico. Texto gerado por IA precisa de revisão sua, linha a linha, antes de ir ao ar, por dois motivos práticos. A ferramenta escreve informação clínica errada com a mesma fluência da certa, e o texto que ela entrega por padrão serve para qualquer consultório do país.
O que as resoluções do CFM dizem
A Resolução CFM nº 2.454/2026, publicada no Diário Oficial em 27 de fevereiro de 2026, normatiza o uso de inteligência artificial na medicina. O art. 23 fixou a entrada em vigor em 180 dias após a publicação. O foco do texto é o uso clínico, e não há capítulo sobre redação de sites.
Três pontos dela alcançam quem usa IA para produzir conteúdo de divulgação:
- Art. 7º, § 3º. O uso de modelos, sistemas e aplicações de IA aplicados à medicina com finalidade mercantil, publicitária ou promocional deve observar rigorosamente as normas éticas relativas à publicidade médica.
- Art. 7º, § 1º. A utilização da IA não exime o médico do cumprimento do Código de Ética Médica e das demais normas do CFM.
- Art. 6º, § 1º e § 3º. O médico deve assegurar que dados pessoais de pacientes só sejam compartilhados com sistemas de IA de forma adequada às finalidades informadas ao titular e quando estritamente necessário, e é vedado usar sistemas que não garantam padrões mínimos de segurança compatíveis com dados sensíveis.
As normas de publicidade a que o art. 7º remete estão na Resolução CFM nº 2.336/2023. O art. 1º define publicidade ou propaganda médica como a comunicação ao público, por qualquer meio, da atividade profissional, com iniciativa, participação ou anuência do médico. Site e blog entram aí. A resolução não menciona inteligência artificial. Suas regras valem para o texto publicado, qualquer que seja a forma como foi escrito.
Quem responde pelo texto
O art. 3º da Resolução 2.336/2023 estabelece que, perante os Conselhos Regionais, o médico responde pela divulgação de matérias enquanto pessoa física, e o diretor técnico responde pela divulgação dos estabelecimentos. O artigo não inclui agência, redator ou ferramenta entre os responsáveis.
Na prática, se um texto do seu blog promete resultado de tratamento, quem responde ao CRM é você, ainda que a frase tenha saído de um gerador de texto e sido publicada pela secretária. Combine por escrito, com quem cuida do site, que nada sobre saúde é publicado sem a sua aprovação.
A ferramenta redige, a agência publica, e quem assina e responde perante o CRM é o médico.
Onde a IA erra em texto de saúde
Modelos de linguagem geram a continuação mais provável de um texto. A forma sai correta, e a correção do conteúdo fica por conta de quem revisa. Os erros mais comuns em conteúdo médico:
- Referências inventadas. Estudos, autores e diretrizes que não existem, citados com aparência de verdade.
- Números sem origem. Percentuais de eficácia, prevalências e prazos de recuperação que a ferramenta não tem de onde tirar.
- Conduta desatualizada ou de outro país. Nome comercial de medicamento que não existe no Brasil, protocolo de outra sociedade médica, indicação já revista.
- Promessa embutida. Expressões como resultado garantido ou definitivo, comuns em texto de marketing, que esbarram nas vedações do CFM.
O art. 11 da Resolução 2.336/2023 veda, entre outras condutas, garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento (inciso XII), participar de propaganda enganosa de qualquer natureza (inciso VI) e portar-se de forma sensacionalista ou autopromocional ou divulgar conteúdo inverídico (inciso XVI). Um dado clínico inventado pela ferramenta e publicado sem conferência é conteúdo inverídico com o seu nome embaixo.
O risco do texto genérico
O segundo problema é menos grave e mais frequente. Peça a uma IA um texto sobre dermatite atópica e ela devolve o mesmo artigo que devolveria a qualquer outro dermatologista. A orientação oficial do Google sobre conteúdo gerado por IA diz que usar essas ferramentas para criar muitas páginas sem agregar valor ao usuário pode violar a política de spam sobre abuso de conteúdo em escala, e recomenda checar e revisar manualmente todo conteúdo gerado antes de publicar, incluindo títulos, descrições e dados estruturados.
O que torna um texto seu é o que a ferramenta não sabe: como você conduz a primeira consulta, quais dúvidas os pacientes trazem com mais frequência, que exames costuma pedir e por quê, o que você não faz e para quem encaminha. Dite isso em áudio e use a IA para organizar a transcrição.
Roteiro de revisão antes de publicar
- 1Leia o texto inteiro como se um colega da especialidade fosse ler. Corte o que você não diria em consulta.
- 2Confira cada número, dose, prazo e nome de medicamento na fonte primária. Sem fonte, retire.
- 3Abra cada referência citada. Se o link ou o estudo não existir, apague a frase que dependia dele.
- 4Procure promessas de resultado, superlativos e tom sensacionalista. Reescreva ou remova.
- 5Acrescente o que é seu: critério de indicação, rotina do consultório, limites do atendimento.
- 6Confira se a página traz nome, CRM e, havendo especialidade registrada, o RQE, como exige o art. 4º da Resolução 2.336/2023. O art. 6º pede esses dados na página principal de sites e blogs.
Dados de pacientes no prompt
Um cuidado fica fora do texto publicado e dentro da ferramenta. Colar no chat um trecho de prontuário, um laudo com nome ou a história de um paciente identificável para a IA reescrever como caso ilustrativo é compartilhar dado pessoal sensível com um sistema externo. O art. 6º da Resolução 2.454/2026 trata desse compartilhamento. Use situações hipotéticas, escritas por você, sem nenhum elemento que permita reconhecer alguém.
As tarefas em que a IA ajuda com menos risco são as de forma: organizar um ditado, encurtar parágrafos, sugerir títulos, trocar jargão por linguagem que o paciente entende, apontar trechos confusos. O conteúdo clínico e a decisão de publicar continuam com você.
Este texto é informativo e resume trechos das Resoluções CFM nº 2.454/2026 e nº 2.336/2023 lidos nas versões publicadas pelo Conselho. Ele não substitui a leitura integral das normas nem a consulta ao CRM do seu estado ou a um advogado para o seu caso.







