Page for Doctor
Todas as matérias
Eventos e mentoria

5 min de leitura

Como estruturar a programação de uma imersão para médicos

Gabriel BusquetDesign e desenvolvimento

A programação de uma imersão para médicos se monta a partir da prática. Defina o que o participante precisa conseguir fazer ao final, reserve o tempo de treino que isso exige e só depois encaixe as aulas expositivas, os intervalos e o material. Em um ou dois dias cabe menos conteúdo do que o professor costuma planejar, e cortar tema faz parte do trabalho.

Objetivos antes dos horários

Escreva de três a cinco objetivos com verbo de ação: indicar, executar, interpretar, conduzir. Imagine uma imersão hipotética de ultrassom à beira do leito. Um objetivo bem escrito seria obter as janelas básicas e reconhecer os achados que mudam a conduta. Um objetivo como conhecer os princípios do ultrassom não orienta a grade, porque qualquer aula cabe nele.

Cada bloco da programação precisa servir a um desses objetivos. O tema que não serve a nenhum vai para a apostila ou para o material enviado antes do evento.

Blocos de aula e prática

Organize o dia em módulos, e cada módulo em quatro partes: exposição curta, demonstração, prática e discussão. O aluno ouve o conceito, vê alguém fazer, faz e depois conversa sobre o que deu errado. A tabela abaixo é um modelo hipotético de um dia, para adaptar ao seu tema.

HorárioBlocoFormato
8h00Credenciamento e caféRecepção
8h30Abertura, objetivos e combinados da turmaExposição
9h00Módulo 1, conceito e indicaçãoAula
9h40Módulo 1, demonstração e treinoPrática em estações
11h00IntervaloCafé
11h20Módulo 2, técnica passo a passoAula e demonstração
12h00Módulo 2, treinoPrática em estações
13h00AlmoçoNo local
14h30Discussão de casosGrupos pequenos
15h30Módulo 3, situações difíceisPrática em rodízio
16h45IntervaloCafé
17h00Plano de ação e dúvidasTrabalho individual e plenária
17h45Encerramento e certificadosPlenária

Coloque a prática mais difícil em um horário em que a turma ainda está descansada, e evite aula expositiva longa logo depois do almoço. Em imersão de dois dias, o primeiro costuma ficar com fundamentos e prática básica, e o segundo com casos e prática avançada. Publique o horário de encerramento do segundo dia, porque quem veio de outra cidade compra a passagem de volta com base nele.

Intervalos e ritmo

O intervalo é o momento em que o participante conversa com o professor e com os colegas, e essa conversa faz parte do que ele pagou. Quando a manhã atrasa, corte conteúdo e mantenha o intervalo. Para isso, cada professor marca de antemão quais slides do seu bloco podem ser pulados sem prejudicar a prática.

  • Nomeie uma pessoa para controlar o tempo, com autoridade para avisar o professor.
  • Deixe alguns minutos de folga entre aula e prática. Levar uma turma inteira de uma sala a outra e distribuir os grupos pelas estações leva tempo.
  • Sirva o almoço no local. Turma que sai para almoçar fora volta atrasada e em partes.
  • Mostre na tela de espera o horário de retorno de cada intervalo.

Prática em estações

A prática define o número de vagas. Faça a conta do tempo de mão na massa por pessoa. Imagine uma turma hipotética de 24 alunos em 4 estações, com rodadas de 30 minutos. São 6 alunos por estação e 5 minutos de execução para cada um em cada rodada. Se esse tempo é pouco para a habilidade que você prometeu, reduza as vagas ou aumente as estações antes de abrir a venda.

  • Um instrutor por estação, com roteiro escrito do que demonstrar e do que cobrar.
  • Uma folha de checklist por aluno, que o instrutor preenche e devolve.
  • Lista de equipamentos e insumos por estação, conferida na véspera com tudo ligado.
  • Um sinal sonoro ou visual único para a troca de estação.

Se a prática inclui paciente, modelo ou transmissão de procedimento, leia a Resolução CFM nº 2.336/2023. O art. 13, inciso IV, lista entre os direitos do médico usar, em eventos científicos destinados exclusivamente a médicos e estudantes de medicina, imagens transmitidas em tempo real com aplicação de técnicas, desde que obtenha autorização prévia do paciente ou do representante legal. O art. 9º, inciso XIII, condiciona os cursos restritos a médicos à confirmação dos dados dos inscritos pelo organizador e à garantia de confidencialidade dos casos discutidos.

Na programação, isso vira um combinado lido na abertura: o que pode e o que não pode ser fotografado ou gravado pela turma. Para prática com paciente, confirme o formato com o CRM do seu estado antes de divulgar.

Material de apoio

A grade diz qual material cada bloco exige. Aula pede o capítulo correspondente na apostila. Prática pede roteiro de estação e checklist. Discussão de casos pede uma folha por caso, com os dados, as perguntas e espaço para anotar. O formato e o acabamento dessas peças estão no artigo sobre apostila e material para imersão médica.

Envie um material prévio curto alguns dias antes: uma leitura ou um vídeo com os conceitos que você não quer repetir em sala, e um questionário sobre a experiência de cada inscrito com o tema. As respostas mostram o nível da turma e permitem montar grupos de prática equilibrados.

O que o participante leva

  • A apostila impressa e o acesso à versão em PDF.
  • Os checklists e protocolos em formato de consulta rápida, para deixar no consultório.
  • A folha de checklist da prática, preenchida pelo instrutor, com os pontos em que ele ainda precisa treinar.
  • Um plano de ação escrito na última sessão, com o que vai mudar na rotina na semana seguinte.
  • O certificado com carga horária e conteúdo programático.
  • O endereço de uma página com referências, atualizações e gravações, quando houver.
  • O contato dos colegas de turma, se o grupo concordar em compartilhar.

Antes de liberar a turma, aplique uma avaliação de três perguntas: o que foi mais útil, o que faltou e o que pode sair. Feita ainda na sala, ela é respondida por quase todos, e as respostas ajustam a grade da próxima edição.

Este texto é informativo e não substitui a leitura da resolução nem a consulta ao CRM do seu estado ou a um advogado, em especial sobre prática com paciente e uso de imagem.

Fontes

Leia a seguir